Blog do Desnecessário

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Terra Blog

09.11.08

Sonhos a la Bilac

 

Existe a possibilidade de carregar algo a mais por dentro, mas não se tem certeza. Eu não sei quando eu comecei a me perder e a perder o rumo. Cheguei devagar e triste. Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada e triste e triste e fatigado eu vinha. Havia um sonho, perdido, mas havia. E agora eu tento vender os meus sonhos, ou quem sabe leiloa-los na vã esperança de ganhar algo em troca, algum retorno, mas nada. Só me resta a obviedade. E é ela quem acompanha sempre alguém, por mais forte que a casca pareça, é sempre ela quem está bem escondida ao fundo. No fundo, as pessoas são sempre tradicionais e óbvias. As suas vidas são sempre repetidas e óbvias e para fugir da grande mesmice a que se resumem suas existências, elas procuram o oposto ou algo que lhes dêem sentido. Eu sempre procurei no amor e na arte, embora o retorno nem sempre seja o esperado. Por isso eu troco mesmo. É muito mais fácil e covarde escrever em terceira pessoa, você nunca se mostra por completo. Tinha a alma de sonhos povoada e a alma de sonhos povoada eu tinha. Eu também Bilac, eu também. Tenho quase certeza de que carrego algo a mais aqui dentro e isso me apavora, mas não por completo. Na verdade, sou bastante superficial, mas quem não é? Em uma situação dessas, muitos já teriam optado pelo tiro. Na cabeça, para não deixar rastro nem possibilidade de olhar pra trás. Presa à minha a tua mão. Nós sempre andávamos juntos; três anos, uma vida... Estrela da vida inteira. Nossas mãos eram companheiras. E continuarão sendo por que são as mãos que devem estar juntas. Pela vida afora. Mas então, vendem-se sonhos. Velhos e talvez já vividos, mas vendem-se. Não se sabe ao certo porquê, mas o objetivo primaz da venda é o combate à mesmice.

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  • Postado em 02:22:30

Luy

 

Quando o conheci, logo gostei, mas ele não simpatizou imediatamente comigo. Senti isso. Normal, até eu não simpatizaria. E aos poucos acho que ganhei ele, conquistei. Eu sempre gostei das pessoas mais difíceis, das mais problemáticas, mais irascíveis. Geniosos sempre me atraíram. São como um impulso de vida. Quando a minha pára e estagna e se torna completamente sem graça, essas pessoas surgem e dão um sopro. E só isso basta. Basta respirar, Luysinho.

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  • Postado em 01:31:20

21.05.08

Vida inteira

 

 

Uma considerável quantidade de bocas e corpos provados, como se fossem provas de uma ode triunfal. Poderia ter gostado de qualquer um que lhe tivesse sido gentil, tantos foram, mas não, sabe-se lá por que, o alarme soou com este. E eu que tenho levado uma vida desregrada desde o início da juventude; eu que tantas vezes não respeitei compromissos muito menos regras de conduta; eu que nunca fiz a menor questão de parecer pudica; eu que sempre exaltei a promiscuidade, e a exalei; eu que nunca me envergonhei das investidas; que quando eles não vêm, vou até eles; eu que já não recordo as fragrâncias que passaram pelo meu corpo; eu que deitei em tantas camas sem ter necessariamente dormido; eu que já tentei cortar os pulsos; eu que poso de Brigitte Bardot sem o glamour e extremamente decadente; eu que sempre tive as piores reputações; eu que já pensei na possibilidade da profissão; eu que já trai e fui traída; eu que sempre proclamei a minha total independência, mesmo sem tê-la; eu ainda não me esqueci daquele maldito beijo, naquele maldito e fatídico dia, em que você me viu e desde aquele dia a minha vida se tornou uma maldição sem limites, porque eu vago a cidade a sua procura, baseada em uma promessa de ambas as partes. E desde então todos os que eu vejo são você, e às vezes eu sinto o cheiro do seu suor e nos lugares públicos eu ouço a música que dançamos e que só você conhecia. Eu tenho deitado nas camas, mas é o seu corpo que vejo lá, seu corpo que eu nunca vi despido. Você que eu não queria ter, que veio inesperado e que eu só tive uma vez em meus braços, me marcou pra vida inteira.
E mesmo que você vá embora e você vai, eu nunca vou te esquecer e sei que serei sempre lembrada.


Kisses.


Largamente inspirado em Poema em linha reta, Fernando Pessoa.

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  • Postado em 01:51:36

15.05.08

Mãe

 

Minha mãe lavava pratos enquanto eu e meu irmão ríamos dela. Ela não resistia e ria de si mesma também. Eu sempre respeitei muito mais a ela do que a meu pai, é lógico, ele não merecia a família que tinha. Minha mãe estava muito mais acima, ela pairava no ar. Não se deve confiar em nenhuma pessoa, só nas mães, porque elas não são pessoas, são seres excepcionais. Só existem uma vez e para um indivíduo, não são as mesmas para diferentes filhos. A minha tinha um sensor de felicidade comigo, ela enxergava além do comum. Ela lia na testa. Isso me irritava às vezes, mas eu compreendia. Hoje fico pensando se quando eu for mãe vou ser igual a minha. Se não for, peço demissão. Mas acho que não serei, não tenho cacife para isso. Minha mãe não tocava nenhum instrumento musical, ela só fazia cantar pela casa e enchia a casa de luz. Minha mãe era a estrela do cabaré, com seus reclames e tormentos, ela tumultuava uma vida. Provocava desordem, irritava a paz do lar, virara e desvirava a casa, mas só ela conseguia dar algum sentido aquele caos. Minha mãe é só minha e de mais ninguém.

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  • Postado em 00:48:24

12.04.08

Wilima

Ela me pediu um depoimento, mas eu não soube responder. Ela queria uma demonstração de afeto, ou melhor, as famosas provas de amor. Eu não soube o que dizer. Então só puder dizer que ela ocupa grande parte do meu dia, e quem sem ela a vida seria sem cor, mas eu teria de melhorar essas palavras porque demonstrações de afeto públicas nunca foram a minha praia, e eu ainda não aprendi a dizer o quanto amo os meus verdadeiros amigos e como a minha vida seria infeliz sem ela.

  • criado por  lilika.ba criado por lilika.ba
  • Postado em 01:46:12